O Professor me Quebrou!

Capítulo 1 — Aula de Olhares

Clara nunca tinha sentido algo parecido. Professores, para ela, sempre foram figuras previsíveis, rígidas, presas a regras e metodologias entediantes. Mas aquele homem não. Gabriel Mancini não parecia apenas um professor. Ele parecia uma ameaça velada, um perigo delicioso que a mente dela não sabia como processar.

Quando entrou na sala, tudo parou.

O som dos sapatos italianos ecoou pelo chão de madeira polida, marcando um compasso lento, calculado. Ele vestia um terno escuro, tão perfeitamente alinhado ao corpo que parecia ter sido esculpido nele. A gravata, levemente afrouxada, dava um ar de desleixo proposital, como se cada detalhe fosse uma provocação silenciosa. E então, ele ergueu os olhos.

Clara perdeu o ar.

Aquela íris castanho-escura, quase negra, prendia qualquer pessoa que ousasse olhar. Não havia espaço para distrações; era como ser despida sem sequer ser tocada.

— Bem-vindos à disciplina de Psicologia do Prazer. — A voz dele cortou o silêncio como uma lâmina quente. Grave, firme, cheia de uma calma que quase parecia um aviso. — Nesta sala, vocês vão aprender que tudo o que pensam saber sobre limites… é mentira.

A turma ficou estática. Alguns alunos riram nervosamente. Outros desviaram o olhar, incômodos. Clara, no entanto, permaneceu com os olhos presos nele — e isso foi o suficiente para ser notada.

O professor andou devagar até a terceira fileira, onde ela estava. Cada passo era uma ameaça de algo desconhecido.

— Você — disse, com um olhar afiado. — Qual é o seu nome?

Clara engoliu em seco.

— Clara… Clara Martins.

— Clara. — Ele repetiu o nome como se estivesse provando o gosto de cada sílaba. — Me diga… qual é o limite entre dor e prazer?

Um arrepio percorreu a espinha dela. A sala inteira parecia observá-la, mas tudo que Clara sentia era o peso daquele olhar.

— Eu… eu não sei. — Sua voz saiu quase como um sussurro.

Ele sorriu de canto. Um sorriso lento, perigoso.

— Boa resposta. Significa que você está no lugar certo.

Clara sentiu as bochechas queimarem. Não sabia se era vergonha ou algo mais escuro. Algo que ela não queria nomear.

A aula continuou, mas Clara mal conseguia acompanhar as palavras no quadro. Gabriel falava sobre os mecanismos da mente, sobre como prazer e medo muitas vezes caminham juntos, e cada frase parecia um golpe direto na sua alma. Era como se ele falasse com ela, apenas com ela.

Em determinado momento, ele perguntou:

— Alguém aqui já entregou o controle da própria vida para outra pessoa? — A sala ficou muda. — Não estou falando apenas de relações. Estou falando de confiança. De entregar suas fraquezas sabendo que a outra pessoa pode destruí-las.

Clara não piscou. E foi nessa fração de segundo que percebeu que ele estava olhando diretamente para ela.

Quando a aula terminou, a maioria dos alunos saiu rapidamente, como se precisassem escapar da intensidade daquele homem. Clara ficou. Queria levantar, mas algo nela — talvez pura curiosidade ou pura loucura — a manteve sentada, organizando lentamente os cadernos.

Ele se aproximou.

— Clara. — A voz dele soou baixa, quase um comando. — Você desviou o olhar quando falei de vulnerabilidade.

Ela respirou fundo.

— Porque eu não sabia como responder.

— Não encarar a mim… ou a si mesma? — Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos quase na altura dos dela.

O silêncio que seguiu foi mais eloquente do que qualquer resposta. Ela sentiu o corpo inteiro em alerta, como se algo estivesse prestes a acontecer.

Gabriel sorriu, um sorriso lento, perigoso.

— Você não faz ideia do que está pedindo. — Ele deu meio passo para trás. — Mas eu sei quando alguém está pronta para ser quebrada.

Clara sentiu a respiração acelerar. Era um aviso? Ou uma promessa?

Antes que ela pudesse responder, ele já estava na porta. Parou, sem virar o rosto, e disse:

— Amanhã, na minha sala. Sozinha.

Clara saiu da sala como quem flutua. Cada célula do corpo parecia elétrica. O que ele queria com ela? Por que aquelas palavras soavam tão erradas, mas ao mesmo tempo tão impossíveis de ignorar?

No caminho para casa, sentiu-se perdida. As cenas da aula voltavam em flashes — o olhar dele, as perguntas provocadoras, a forma como ele parecia adivinhar os pensamentos mais íntimos dela.

Deitou na cama, mas não conseguiu dormir. Fechava os olhos e só conseguia lembrar da voz dele dizendo “Você está pronta para ser quebrada”.

E a pergunta que mais a assombrava não era “o que ele quis dizer? ”, mas sim: será que ela queria ser quebrada?

No dia seguinte, Clara acordou mais cedo do que o habitual. Tentou se convencer de que não iria. “É só um professor, uma aula. Isso é errado”, repetia para si mesma. Mas quando olhou no espelho, vestindo a camisa branca e a saia lápis, sentiu algo diferente. Um arrepio de antecipação.

As horas pareceram dias até que o relógio marcou a hora da aula. Quando chegou, a porta estava entreaberta. Clara respirou fundo, hesitou… e entrou.

Gabriel estava lá, encostado na mesa, com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos. Ele ergueu os olhos devagar, como se soubesse que ela viria.

— Pontual. Gosto disso. — O tom dele soou quase como uma provocação. — Feche a porta, Clara. Hoje a aula é só para você.

O coração dela disparou.

— O que… o que vai me ensinar?

Ele se aproximou, devagar.

— Primeiro, vou ensinar você a não ter medo de olhar nos meus olhos. — Gabriel parou tão perto que ela sentiu o calor da respiração dele. — E depois… vou te mostrar como é quando alguém tira o controle que você acha que tem.

Clara sentiu o corpo inteiro estremecer. Parte dela queria fugir. Outra parte queria ver até onde aquilo iria.

E antes que pudesse se decidir, ele sorriu de canto e disse, quase como um sussurro:

— A primeira lição começa agora.

Capítulo 2 — Palavras que tocam

Clara passou a manhã tentando convencer a si mesma de que não iria. Que aquilo era loucura. Que professores não trancam portas. Que alunas sensatas não voltam. Mas, quando o relógio marcou quatro da tarde, ela já estava na ala antiga da Universidade Ravenville, com o coração batendo no pescoço e o som dos próprios passos ecoando no corredor.

A porta do gabinete estava entreaberta. Ela respirou fundo, bateu duas vezes, e entrou.

Gabriel Mancini não a olhou de imediato. Estava de costas, diante de uma estante alta, escolhendo livros como quem escolhe armas. Camisa branca dobrada até os cotovelos, veias marcadas nos antebraços, relógio escuro, exato. A luz do fim de tarde entrava pelas venezianas, riscando listras de sombra no rosto dele quando se virou.

— Pontualidade é um bom começo — disse, sem floreio, pousando três livros sobre a mesa. — Sente-se, Clara.

Ela obedeceu. Ele sentou-se diante dela, sustentando o olhar sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo para desmontá-la.

Empurrou o primeiro livro em sua direção.

— A Pianista, de Elfriede Jelinek. Leu?

— Não.

— Ótimo. Gosto quando você não vem armada. — Um segundo livro. — História do Olho, de Bataille. Leu?

Clara negou de novo, um pouco confusa com o rumo. Ele sorriu de leve.

— E por fim… — empurrou o terceiro, com a lombada gasta. — Anaïs Nin – Diários. Isso, eu suspeito, você folheou escondido.

Ela ruborizou. Não respondeu.

— Excelente. Vamos começar com A Pianista. — Gabriel abriu numa página marcada. — A autora trabalha angústia e desejo como duas línguas da mesma boca. Sabe por quê?

— Porque… às vezes o desejo dói?

— Porque o desejo, sem liberdade, apodrece. — Ele inclinou-se. — E eu vejo liberdade travada em você. Travada de um jeito… interessante.

Clara tentou se recompor. Pegou o livro, leu o parágrafo que ele indicou. As palavras eram cortantes, ásperas, nada românticas. Um desejo sem glamour, quase cru. Quando terminou, levantou os olhos.

— Você acha que o prazer precisa ser… feio? — arriscou.

— Eu acho que o prazer precisa ser verdadeiro. E o verdadeiro raramente é “bonito”. — Ele apoiou os cotovelos na mesa. — Me diga, Clara: o que te dá prazer?

Ela prendeu a respiração.

— Literatura.

— Lamento. Resposta genérica. — Ele a mediu com os olhos. — Tente de novo. E não minta para si mesma.

— Por que você acha que estou mentindo?

— Porque sua pupila dilata quando você é obrigada a falar de si. Porque você mexe o pé direito sob a mesa quando sente medo. E porque você escolheu uma disciplina com meu nome quando poderia ter escolhido qualquer outra. — Um sorriso enviesado. — Agora, responda.

Clara olhou para a janela, como se o céu pudesse soprar a resposta. E, de repente, entendeu o que estava acontecendo: ele a conduzia para um lugar onde palavras não eram teoria. Eram confissão. E, pior, eram armas.

— Eu… — começou, sentindo o nó na garganta apertar. — Eu gosto quando alguém me lê como se estivesse me tocando. Satisfeito?

Gabriel não piscou.

— Agora sim.

O silêncio pesou um segundo inteiro.

Ele pegou História do Olho e abriu numa passagem. A leitura foi mais incômoda — imagética, desafiadora, quase despudorada. Ele recostou-se na cadeira, observando cada reação dela. Clara fechou o livro devagar.

— Isso é… demais.

— “Demais” é um adjetivo que os covardes usam quando a fronteira que conhecem se mexe. — Ele puxou os diários de Anaïs Nin. — Leia este trecho. Alto.

Clara engoliu seco, mas obedeceu:

— “Escrevo para dar forma ao que me devora. Se não escrevo, me dissolvo.”

Ela parou. A frase ficou vibrando no ar.

— Entendeu? — perguntou Gabriel.

— Sim.

— Então diga com suas palavras.

— Se eu não coloco para fora, eu apodreço por dentro.

— E o que está apodrecendo em você, Clara?

— Eu…

Ela fechou os olhos por um segundo. Tão longo, que parecia abandono. Quando abriu, tinha decidido:

— Eu tenho medo de sentir muito e parecer errada. Tenho medo de querer e ser chamada de fraca. Eu não sei o limite entre controle e entrega. E eu tenho raiva — a voz falhou — de nunca ter dito isso em voz alta.

O ar mudou.

Gabriel se inclinou para a frente. Não tocou nela. Não precisou.

— Agora começamos nossa aula.

— Só agora?

— Antes você estava me mostrando quem você finge ser. Agora, quem você é.

Ele levantou, caminhou até a estante, pegou um caderno preto sem marca. Colocou diante dela.

— Escreva.

— O quê?

— Uma página. Sem interrupção. Sobre “o que você não se permite desejar”. Sem metáforas para se proteger. Sem adjetivos para maquiar. Quando terminar, você vai ler em voz alta.

O coração de Clara disparou.

— Isso é um exercício… acadêmico?

— Não. É um exercício… honesto.

Ela segurou a caneta. A ponta tocou o papel. Por alguns segundos, nada. Depois, as palavras saíram em avalanche — tortas, tensas, feias, verdadeiras. Sentiu a garganta arder, as mãos tremerem, uma parte dela resistir enquanto outra se aliviava. Quando parou, não sabia se estava mais leve ou mais exposta.

— Leia — ordenou ele, com suavidade suficiente para parecer cuidado, com firmeza suficiente para soar como imposição.

Clara respirou. Começou. A voz saiu frágil na primeira linha, depois firme, depois trêmula de novo. Falou do medo de ser chamada de vulgar, da vontade de ser conduzida, da raiva de ter fingido ser menor para ser aceita, do desejo de… confiar — realmente confiar — em alguém que soubesse exatamente o que fazer com a fragilidade dela.

Quando terminou, a sala parecia outra. O rosto dela estava quente. Havia lágrimas nos olhos, mas não eram de vergonha.

— Você acabou de fazer mais do que metade da turma faria em um semestre — disse Gabriel, devagar. — Se quiser parar, é agora.

Ela ergueu os olhos. E, sem perceber, havia um brilho neles que ele não tinha visto antes.

— Eu não quero parar.

Ele se recostou, estudando-a como quem recalcula um mapa.

— Bom. Então, aqui estão as regras — disse, finalmente, com uma calma que anunciava tempestade. — Entre nós, não haverá o jogo dos “talvez”. Ou você diz sim. Ou diz não. Ouviu?

— Ouvi.

— Segunda regra: não minta para mim. Nunca. Eu descubro.

— Certo.

— Terceira: você escreve, a cada encontro, uma página sobre algo que te assusta sentir. E lê em voz alta.

— Isso não é… perigoso?

— Sentir é perigoso. Escrever sobre sentir é um ato de coragem. — Ele ficou em pé, devagar. — E você pediu para ser quebrada, Clara. Eu só estou te mostrando como se faz sem te destruir.

Uma parte dela se encolheu. Outra, se expandiu.

— E qual é o limite? — perguntou, quase em desafio.

Ele sorriu, mas dessa vez havia algo quente no sorriso. Quase… ternura.

— O limite é sempre o seu. Mas eu vou te levar até ele.

A luz já tinha desbotado do lado de fora quando ele fechou o caderno e devolveu a ela.

— Vá embora, Clara.

Ela piscou.

— Só isso?

— Só isso, por hoje. — Uma pausa. — E um último pedido.

— Qual?

— Não use o que escrevemos aqui para se punir quando estiver sozinha. Use para se reconhecer quando o mundo quiser te reduzir.

Ela assentiu, com um nó na garganta.

Quando chegou à porta, ele chamou:

— Clara.

Ela se virou.

— Da próxima vez… não venha de branco.

— Por quê?

— Porque você não é inocente. E eu prefiro quando as pessoas não mentem nem com a roupa.

Ela segurou a maçaneta, o pulso latejando.

— E se eu vier de vermelho?

O olhar dele cintilou.

— Então você terá entendido a lição.

Clara saiu, o coração batendo em outra cadência. Caminhou pelo corredor vazio como quem reaprende a andar. No fim do corredor, recebeu uma mensagem no celular. Um número desconhecido.

Desconhecido: Traga amanhã um texto sobre “o que você teria coragem de pedir se ninguém pudesse te julgar”.

Desconhecido: Ass.: G.M.

Ela sorriu sem perceber. E só então notou que, dentro do medo, havia algo maior.

Vontade.

Quando guardou o celular, uma sombra cruzou o corredor, observando-a à distância. Henrique, colega de curso, a viu sair do gabinete de Gabriel com os olhos marejados e o rosto aceso. E entendeu que havia um jogo acontecendo ali.

Um jogo em que ele não tinha sido convidado.

E, talvez, decidisse se intrometer.

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