Uma Tattoo com meu nome

Capítulo 1 — O Cheiro de Julho

Julho chegou quente demais.

O tipo de calor que faz a cidade parecer um bicho vivo, suando nas esquinas, cansado de si. Arandela nunca foi um lugar fresco, mas aquele verão parecia ter grudado nas paredes, nas roupas, até nos pulmões.

Foi nesse calor que eu vi Ian pela primeira vez.

Eu tinha saído da livraria Entrelinhas para tomar um ar. Sentei no degrau da calçada com uma garrafinha de água quente na mão e os pensamentos mais ainda. O sol batia na testa, mas eu preferia aquilo ao barulho do ventilador quebrado dentro da loja. A vitrine refletia a luz como uma febre.

Ele veio andando como se o calor não tivesse nada a ver com ele. Camiseta cinza escura colada no corpo, braço tatuado até o pulso, cigarro aceso preso entre os dedos. Tinha um andar distraído, mas os olhos eram atentos — olhos cinzentos, como nuvem antes da chuva.

Parou na faixa, bem na frente da livraria. Olhou pra dentro, depois olhou pra mim. E sorriu.

Não foi um sorriso bonito. Foi um sorriso torto, preguiçoso, quase debochado. Mas alguma coisa ali mexeu em mim. Como se aquele estranho soubesse de algo que nem eu sabia ainda.

— Tá quente, né? — ele disse, com a voz rouca de quem já tinha fumado metade do maço antes do café da manhã.

Assenti. Era tudo o que consegui fazer.

Naquele instante, algo em mim cedeu. Como uma janela que se abre sozinha com o vento.

Nos dias seguintes, ele passou por lá mais vezes.

Sempre do mesmo jeito: passo arrastado, camisa escura, cabelo bagunçado e aquele cheiro agridoce de cigarro mentolado e alguma fruta. Descobri depois que ele trabalhava na rua de trás, num estúdio de tatuagem chamado Marcação. A entrada era pequena, pintada de preto fosco, com uma luminária vermelha pendurada acima da porta, como se o lugar estivesse sempre esperando alguém à noite.

Um dia, ele entrou na livraria. Disse que queria comprar um livro de cartas antigas, mas passou mais tempo me olhando do que lendo sinopses.

— Você gosta disso tudo aqui? — ele perguntou, apontando com o queixo para as prateleiras cheias de volumes empoeirados.

— Gosto, sim — respondi, sem saber o que mais dizer. Sempre fui assim com estranhos. Ainda mais com os bonitos.

— Tem cheiro de história velha e chá esquecido. — Ele riu. — Mas é bom. Parece você.

Fiquei vermelha na hora. Ele percebeu. E não pediu desculpas.

Naquela noite, escrevi sobre ele no meu diário. Não o nome. Só a sensação.

“Tem um homem novo passando pela livraria. Ele tem cheiro de manga madura e cinza de cigarro. Fala como se sempre soubesse mais. Olha como quem desarma.”

Escrevi isso e guardei o caderno embaixo do travesseiro, como se fosse segredo.

Alguns dias depois, ele me chamou pra tomar um café.

Mas não fomos a uma cafeteria. Ele apareceu na frente da livraria e disse:

— Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.

Tive medo. Mas fui. A rua estava calma e o calor já se escondia nas sombras da tarde.

O estúdio Marcação era escuro, fresco e silencioso. Cheirava a álcool, tinta e hortelã. Ele abriu a porta com a chave presa num cordão no pescoço. Me ofereceu água. Sentei num banco perto da parede e observei os quadros: rostos, flores, frases, um mapa do corpo humano cheio de marcas vermelhas.

— Aqui é onde eu marco gente. Gente que quer lembrar, ou esquecer. — Ele falou isso sem olhar pra mim.

— E o que você marca em si?

Ele virou devagar e me olhou.

Deu um sorriso mais calmo dessa vez.

E respondeu:

— Os nomes que não sei esquecer.

Fiquei quieta. Não era o tipo de frase que a gente responde.

Na saída, paramos numa escada de incêndio que dava vista para a praça.

A cidade parecia derreter ali embaixo. Ele sentou dois degraus acima de mim e ficou enrolando o cigarro.

— Você sempre foi daqui? — ele perguntou.

— Sempre. Nunca saí.

— Isso é bonito. E triste também.

— Você não é daqui, né?

— Vim há uns dois anos. Mas não paro em lugar nenhum por muito tempo.

Havia algo em sua voz… uma pressa contida. Como se cada frase tivesse um prazo de validade.

Ficamos em silêncio por alguns minutos. E então, sem me avisar, ele encostou o queixo no meu ombro.

— Você tem cheiro de paz. Mas seus olhos carregam guerra — ele sussurrou.

E aquilo foi mais íntimo que um beijo.

Nos dias que seguiram, ele vinha buscar café comigo. Sentávamos na praça ou caminhávamos sem rumo. Às vezes não falávamos nada. Outras vezes ele contava coisas esquisitas, como a história de um homem que tatuou o nome do cachorro na coxa porque dizia que era o único ser que nunca o abandonaria.

— Você acredita em ficar? — perguntei uma vez.

Ele respirou fundo, tragou devagar.

— Não. Mas queria.

Na última tarde de julho, choveu leve.

Ele me esperou na porta da livraria com dois cafés, um cigarro e um guarda-chuva quebrado.

— Vai chover mais — ele disse.

— E daí?

— E daí que a gente pode se molhar. E talvez seja disso que você precise. Ser molhada por algo que não queima, só acalma.

Fomos até o estúdio.

Não fizemos nada demais. Só sentamos no chão, com os pés descalços, ouvindo vinis antigos e olhando pro teto. Mas foi a primeira vez que eu quis tocar. Tocar sem culpa, sem medo. Tocar porque meu corpo já não sabia mais ser só meu.

Não nos beijamos.

Mas eu juro que senti como se tivéssemos.

No fim daquela noite, ele me deixou na porta da livraria, com o cabelo pingando e os olhos vermelhos de tanto riso e sono.

Antes de ir embora, encostou a testa na minha.

— Você sabe que eu não fico, né?

Assenti. Pela segunda vez.

E como naquela primeira, uma janela em mim se abriu sozinha com o vento.

Mas dessa vez, já chovia lá dentro.

Capítulo 2 — Os Olhos que Não Pedem Licença

Ian tinha o tipo de olhar que atravessa portas fechadas. Não pedia licença. Só entrava.

A primeira vez que ele olhou fundo, mesmo fundo, foi no meio da rua, três dias depois da noite da chuva. Eu estava dobrando a esquina com uma sacola de pão na mão, distraída com alguma música triste que tocava no meu fone, quando senti alguém me parar sem tocar. Era só o olhar dele — parado no outro lado da rua, esperando o semáforo, com um cigarro entre os lábios e aquele ar de quem carrega todas as histórias que nunca contou.

Ele atravessou sem olhar pro sinal. Parou diante de mim.

— Você tá diferente — ele disse, sem sorrisos dessa vez.

— Só troquei o batom — respondi, meio sem graça.

— Não. Não é isso. É dentro.

Fiquei em silêncio. Sempre me calava quando ele acertava demais.

Naquela tarde, ele me levou até um lugar que eu não conhecia. Um campo quase escondido no fim de uma trilha de terra, cheio de girassóis altos e desorganizados. Alguns estavam meio murchos, outros firmes, apontando pro céu como se ele ainda valesse a pena.

— É aqui que eu venho quando não quero estar em lugar nenhum — ele disse, sentando na grama, sem se importar com a poeira.

Sentei ao lado, com um pouco mais de cuidado. As abelhas zumbiam como um sussurro contínuo, e o ar tinha cheiro de mato úmido e lembrança de infância.

— Como você descobriu esse lugar?

— Seguindo um cachorro perdido. Ele correu por aqui e eu segui. Acabei ficando. O cachorro foi embora.

Rimos. Mas era aquele tipo de riso que já vem com uma saudade embutida.

— Você sempre se apega às coisas que vão embora? — perguntei.

— Eu só me aproximo do que já sei que não vai ficar. Dói menos.

Na hora eu quis responder que talvez ele só não soubesse como é quando alguém escolhe ficar. Mas não disse nada. Eu ainda era uma janela aberta esperando o vento certo.

Aos poucos, estar com Ian se tornou um hábito perigoso.

Ele me ligava de madrugada só pra perguntar se eu já tinha lido aquele poema do Bukowski. Ou pra dizer que o céu estava bonito demais pra ser visto sozinho. Às vezes só respirava do outro lado da linha e desligava sem se despedir.

E eu aceitava tudo.

Aceitava os silêncios, as frases tortas, os sumiços repentinos. Porque quando ele voltava, voltava com um olhar que valia a espera. Um olhar que parecia saber de cor a parte minha que nem eu mesma lia direito.

Na livraria, tudo começou a ficar pequeno. As prateleiras pareciam sufocar, os livros pareciam ecoar só histórias que não eram minhas. Eu lia trechos e pensava nele. “Amar alguém é dar o poder de destruir você e confiar que não o fará.” Esse era do John Green, eu acho. Mas eu lia como se fosse um bilhete dele deixado entre as páginas.

Minha chefe, dona Lúcia, percebeu meu cansaço.

— Tá sonhando acordada demais, Elisa — ela disse, sorrindo com pena. — Olha pra onde você anda com os pés, senão a queda vem sem aviso.

Eu sorri também. Mas por dentro, já tinha tropeçado.

Naquela semana, Ian apareceu com uma flor.

Não uma rosa. Uma flor qualquer — com a haste torta, arrancada no caminho, quase feia.

— Pra você — ele disse, estendendo.

— Que flor é essa?

— Não sei. Mas foi a que olhou pra mim primeiro.

Guardei a flor entre as páginas do diário. Ela secou rápido. Ficou escura, encolhida. Ainda está lá.

Na sexta-feira, ele me chamou pra ir ao estúdio depois do expediente.

— Só quero te mostrar um desenho novo — disse no telefone.

Fui. É claro que fui.

Chegando lá, ele apagou a luz do teto e ligou uma luminária pequena que pendia do canto. A sala ficou banhada por uma luz quente e baixa, como se fosse entardecer por dentro.

Ele me mostrou um desenho em preto e branco. Um coração costurado por linhas finas, com um pequeno nome ao centro: **“Elisa”**.

— É só um esboço — ele disse, sem me encarar.

Meu nome, ali, naquele traço apressado e delicado, parecia mais íntimo do que qualquer toque.

— Por que meu nome?

Ele deu de ombros.

— Porque é o que não sai da minha cabeça.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era vazio. Era cheio de tudo o que não sabíamos dizer.

— Você vai tatuar isso em alguém?

Ele olhou pra mim, devagar.

— Em mim.

Não falei nada naquela noite. Só saí do estúdio com o coração batendo como quem quer fugir de casa, mas fica.

Deitei sem sono. Revi cada detalhe. O nome. A luz. A forma como ele disse “na minha cabeça” e não “no meu coração”. Porque Ian nunca mentia. Nem para soar bonito.

No dia seguinte, ele não apareceu.

Nem ligou.

Nem mandou mensagem.

E eu não sabia se sentia raiva ou medo. Ou só aquela tristeza mansa de quem já esperava o sumiço.

Mas na tarde de domingo, ouvi um barulho na porta da livraria. Ele entrou como se nada tivesse acontecido, com um arranhão na testa e uma sacola de pão francês.

— Você sumiu — soltei, antes de conseguir me segurar.

— Bati a cabeça num poste tentando desviar de um cachorro. Fiquei tonto. Dormi mais do que devia.

Sentei atrás do balcão. Ele me olhou por alguns segundos, depois se aproximou e largou a sacola ao lado.

— Senti sua falta — ele disse, tão baixo que parecia um segredo.

Meus olhos arderam. E naquele momento, sem pensar, eu estiquei a mão e toquei o braço dele.

Ele não se afastou.

E quando nossos olhos se encontraram, houve uma confissão muda: **já era tarde demais para fingirmos que não estávamos entregues**.

Naquela noite, escrevi:

“Ele não é gentil. Mas também nunca finge. E talvez por isso doa menos quando machuca. Ian tem olhos que entram sem pedir, mas deixam marcas até nas partes que ele não viu.”

A semana seguinte foi uma dança sem ritmo.

Ele aparecia sem hora. Me buscava para andar. Para calar. Para rir à toa.

Num desses dias, me encostou na parede da praça e, pela primeira vez, tocou meu rosto com a ponta do nariz, como se o beijo fosse um destino adiado de propósito.

— Você sente medo de mim? — ele perguntou.

— Sinto medo de sentir — respondi.

Ele sorriu.

— Então não sente medo de mim. Sente medo de você comigo.

E talvez fosse isso mesmo.

Na sexta-feira à noite, fui até o estúdio sem ser chamada.

Ele estava desenhando, com o rosto sério, óculos torto e camiseta preta manchada de tinta.

— Posso entrar?

— Já entrou — ele disse, sem olhar.

Sentei no mesmo banco de antes. Esperei. Ele terminou a linha do desenho e, então, olhou pra mim com um tipo de ternura cansada.

— Tô tentando desenhar você. Mas nunca sai igual.

— Talvez eu só exista do lado de dentro — disse.

Ele levantou.

— É. Talvez por isso eu queira marcar do lado de fora.

A frase pairou no ar como fumaça de cigarro.

Não nos tocamos.

Mas quando ele apagou a luz e sentou ao meu lado, senti que, mesmo sem beijo, o corpo dele já morava no meu.

Na saída, ele segurou minha mão por um instante.

Não entrelaçou os dedos. Só encostou palma com palma, quente contra quente.

— Ainda sou provisório, Elisa.

— E eu ainda tô aqui.

E seguimos andando, noite adentro, como quem caminha sobre um fio esticado entre o desejo e a desistência.

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