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  • Uma Tattoo com meu nome

    Uma Tattoo com meu nome

    Capítulo 1 — O Cheiro de Julho

    Julho chegou quente demais.

    O tipo de calor que faz a cidade parecer um bicho vivo, suando nas esquinas, cansado de si. Arandela nunca foi um lugar fresco, mas aquele verão parecia ter grudado nas paredes, nas roupas, até nos pulmões.

    Foi nesse calor que eu vi Ian pela primeira vez.

    Eu tinha saído da livraria Entrelinhas para tomar um ar. Sentei no degrau da calçada com uma garrafinha de água quente na mão e os pensamentos mais ainda. O sol batia na testa, mas eu preferia aquilo ao barulho do ventilador quebrado dentro da loja. A vitrine refletia a luz como uma febre.

    Ele veio andando como se o calor não tivesse nada a ver com ele. Camiseta cinza escura colada no corpo, braço tatuado até o pulso, cigarro aceso preso entre os dedos. Tinha um andar distraído, mas os olhos eram atentos — olhos cinzentos, como nuvem antes da chuva.

    Parou na faixa, bem na frente da livraria. Olhou pra dentro, depois olhou pra mim. E sorriu.

    Não foi um sorriso bonito. Foi um sorriso torto, preguiçoso, quase debochado. Mas alguma coisa ali mexeu em mim. Como se aquele estranho soubesse de algo que nem eu sabia ainda.

    — Tá quente, né? — ele disse, com a voz rouca de quem já tinha fumado metade do maço antes do café da manhã.

    Assenti. Era tudo o que consegui fazer.

    Naquele instante, algo em mim cedeu. Como uma janela que se abre sozinha com o vento.

    Nos dias seguintes, ele passou por lá mais vezes.

    Sempre do mesmo jeito: passo arrastado, camisa escura, cabelo bagunçado e aquele cheiro agridoce de cigarro mentolado e alguma fruta. Descobri depois que ele trabalhava na rua de trás, num estúdio de tatuagem chamado Marcação. A entrada era pequena, pintada de preto fosco, com uma luminária vermelha pendurada acima da porta, como se o lugar estivesse sempre esperando alguém à noite.

    Um dia, ele entrou na livraria. Disse que queria comprar um livro de cartas antigas, mas passou mais tempo me olhando do que lendo sinopses.

    — Você gosta disso tudo aqui? — ele perguntou, apontando com o queixo para as prateleiras cheias de volumes empoeirados.

    — Gosto, sim — respondi, sem saber o que mais dizer. Sempre fui assim com estranhos. Ainda mais com os bonitos.

    — Tem cheiro de história velha e chá esquecido. — Ele riu. — Mas é bom. Parece você.

    Fiquei vermelha na hora. Ele percebeu. E não pediu desculpas.

    Naquela noite, escrevi sobre ele no meu diário. Não o nome. Só a sensação.

    “Tem um homem novo passando pela livraria. Ele tem cheiro de manga madura e cinza de cigarro. Fala como se sempre soubesse mais. Olha como quem desarma.”

    Escrevi isso e guardei o caderno embaixo do travesseiro, como se fosse segredo.

    Alguns dias depois, ele me chamou pra tomar um café.

    Mas não fomos a uma cafeteria. Ele apareceu na frente da livraria e disse:

    — Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.

    Tive medo. Mas fui. A rua estava calma e o calor já se escondia nas sombras da tarde.

    O estúdio Marcação era escuro, fresco e silencioso. Cheirava a álcool, tinta e hortelã. Ele abriu a porta com a chave presa num cordão no pescoço. Me ofereceu água. Sentei num banco perto da parede e observei os quadros: rostos, flores, frases, um mapa do corpo humano cheio de marcas vermelhas.

    — Aqui é onde eu marco gente. Gente que quer lembrar, ou esquecer. — Ele falou isso sem olhar pra mim.

    — E o que você marca em si?

    Ele virou devagar e me olhou.

    Deu um sorriso mais calmo dessa vez.

    E respondeu:

    — Os nomes que não sei esquecer.

    Fiquei quieta. Não era o tipo de frase que a gente responde.

    Na saída, paramos numa escada de incêndio que dava vista para a praça.

    A cidade parecia derreter ali embaixo. Ele sentou dois degraus acima de mim e ficou enrolando o cigarro.

    — Você sempre foi daqui? — ele perguntou.

    — Sempre. Nunca saí.

    — Isso é bonito. E triste também.

    — Você não é daqui, né?

    — Vim há uns dois anos. Mas não paro em lugar nenhum por muito tempo.

    Havia algo em sua voz… uma pressa contida. Como se cada frase tivesse um prazo de validade.

    Ficamos em silêncio por alguns minutos. E então, sem me avisar, ele encostou o queixo no meu ombro.

    — Você tem cheiro de paz. Mas seus olhos carregam guerra — ele sussurrou.

    E aquilo foi mais íntimo que um beijo.

    Nos dias que seguiram, ele vinha buscar café comigo. Sentávamos na praça ou caminhávamos sem rumo. Às vezes não falávamos nada. Outras vezes ele contava coisas esquisitas, como a história de um homem que tatuou o nome do cachorro na coxa porque dizia que era o único ser que nunca o abandonaria.

    — Você acredita em ficar? — perguntei uma vez.

    Ele respirou fundo, tragou devagar.

    — Não. Mas queria.

    Na última tarde de julho, choveu leve.

    Ele me esperou na porta da livraria com dois cafés, um cigarro e um guarda-chuva quebrado.

    — Vai chover mais — ele disse.

    — E daí?

    — E daí que a gente pode se molhar. E talvez seja disso que você precise. Ser molhada por algo que não queima, só acalma.

    Fomos até o estúdio.

    Não fizemos nada demais. Só sentamos no chão, com os pés descalços, ouvindo vinis antigos e olhando pro teto. Mas foi a primeira vez que eu quis tocar. Tocar sem culpa, sem medo. Tocar porque meu corpo já não sabia mais ser só meu.

    Não nos beijamos.

    Mas eu juro que senti como se tivéssemos.

    No fim daquela noite, ele me deixou na porta da livraria, com o cabelo pingando e os olhos vermelhos de tanto riso e sono.

    Antes de ir embora, encostou a testa na minha.

    — Você sabe que eu não fico, né?

    Assenti. Pela segunda vez.

    E como naquela primeira, uma janela em mim se abriu sozinha com o vento.

    Mas dessa vez, já chovia lá dentro.

    Capítulo 2 — Os Olhos que Não Pedem Licença

    Ian tinha o tipo de olhar que atravessa portas fechadas. Não pedia licença. Só entrava.

    A primeira vez que ele olhou fundo, mesmo fundo, foi no meio da rua, três dias depois da noite da chuva. Eu estava dobrando a esquina com uma sacola de pão na mão, distraída com alguma música triste que tocava no meu fone, quando senti alguém me parar sem tocar. Era só o olhar dele — parado no outro lado da rua, esperando o semáforo, com um cigarro entre os lábios e aquele ar de quem carrega todas as histórias que nunca contou.

    Ele atravessou sem olhar pro sinal. Parou diante de mim.

    — Você tá diferente — ele disse, sem sorrisos dessa vez.

    — Só troquei o batom — respondi, meio sem graça.

    — Não. Não é isso. É dentro.

    Fiquei em silêncio. Sempre me calava quando ele acertava demais.

    Naquela tarde, ele me levou até um lugar que eu não conhecia. Um campo quase escondido no fim de uma trilha de terra, cheio de girassóis altos e desorganizados. Alguns estavam meio murchos, outros firmes, apontando pro céu como se ele ainda valesse a pena.

    — É aqui que eu venho quando não quero estar em lugar nenhum — ele disse, sentando na grama, sem se importar com a poeira.

    Sentei ao lado, com um pouco mais de cuidado. As abelhas zumbiam como um sussurro contínuo, e o ar tinha cheiro de mato úmido e lembrança de infância.

    — Como você descobriu esse lugar?

    — Seguindo um cachorro perdido. Ele correu por aqui e eu segui. Acabei ficando. O cachorro foi embora.

    Rimos. Mas era aquele tipo de riso que já vem com uma saudade embutida.

    — Você sempre se apega às coisas que vão embora? — perguntei.

    — Eu só me aproximo do que já sei que não vai ficar. Dói menos.

    Na hora eu quis responder que talvez ele só não soubesse como é quando alguém escolhe ficar. Mas não disse nada. Eu ainda era uma janela aberta esperando o vento certo.

    Aos poucos, estar com Ian se tornou um hábito perigoso.

    Ele me ligava de madrugada só pra perguntar se eu já tinha lido aquele poema do Bukowski. Ou pra dizer que o céu estava bonito demais pra ser visto sozinho. Às vezes só respirava do outro lado da linha e desligava sem se despedir.

    E eu aceitava tudo.

    Aceitava os silêncios, as frases tortas, os sumiços repentinos. Porque quando ele voltava, voltava com um olhar que valia a espera. Um olhar que parecia saber de cor a parte minha que nem eu mesma lia direito.

    Na livraria, tudo começou a ficar pequeno. As prateleiras pareciam sufocar, os livros pareciam ecoar só histórias que não eram minhas. Eu lia trechos e pensava nele. “Amar alguém é dar o poder de destruir você e confiar que não o fará.” Esse era do John Green, eu acho. Mas eu lia como se fosse um bilhete dele deixado entre as páginas.

    Minha chefe, dona Lúcia, percebeu meu cansaço.

    — Tá sonhando acordada demais, Elisa — ela disse, sorrindo com pena. — Olha pra onde você anda com os pés, senão a queda vem sem aviso.

    Eu sorri também. Mas por dentro, já tinha tropeçado.

    Naquela semana, Ian apareceu com uma flor.

    Não uma rosa. Uma flor qualquer — com a haste torta, arrancada no caminho, quase feia.

    — Pra você — ele disse, estendendo.

    — Que flor é essa?

    — Não sei. Mas foi a que olhou pra mim primeiro.

    Guardei a flor entre as páginas do diário. Ela secou rápido. Ficou escura, encolhida. Ainda está lá.

    Na sexta-feira, ele me chamou pra ir ao estúdio depois do expediente.

    — Só quero te mostrar um desenho novo — disse no telefone.

    Fui. É claro que fui.

    Chegando lá, ele apagou a luz do teto e ligou uma luminária pequena que pendia do canto. A sala ficou banhada por uma luz quente e baixa, como se fosse entardecer por dentro.

    Ele me mostrou um desenho em preto e branco. Um coração costurado por linhas finas, com um pequeno nome ao centro: **“Elisa”**.

    — É só um esboço — ele disse, sem me encarar.

    Meu nome, ali, naquele traço apressado e delicado, parecia mais íntimo do que qualquer toque.

    — Por que meu nome?

    Ele deu de ombros.

    — Porque é o que não sai da minha cabeça.

    O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era vazio. Era cheio de tudo o que não sabíamos dizer.

    — Você vai tatuar isso em alguém?

    Ele olhou pra mim, devagar.

    — Em mim.

    Não falei nada naquela noite. Só saí do estúdio com o coração batendo como quem quer fugir de casa, mas fica.

    Deitei sem sono. Revi cada detalhe. O nome. A luz. A forma como ele disse “na minha cabeça” e não “no meu coração”. Porque Ian nunca mentia. Nem para soar bonito.

    No dia seguinte, ele não apareceu.

    Nem ligou.

    Nem mandou mensagem.

    E eu não sabia se sentia raiva ou medo. Ou só aquela tristeza mansa de quem já esperava o sumiço.

    Mas na tarde de domingo, ouvi um barulho na porta da livraria. Ele entrou como se nada tivesse acontecido, com um arranhão na testa e uma sacola de pão francês.

    — Você sumiu — soltei, antes de conseguir me segurar.

    — Bati a cabeça num poste tentando desviar de um cachorro. Fiquei tonto. Dormi mais do que devia.

    Sentei atrás do balcão. Ele me olhou por alguns segundos, depois se aproximou e largou a sacola ao lado.

    — Senti sua falta — ele disse, tão baixo que parecia um segredo.

    Meus olhos arderam. E naquele momento, sem pensar, eu estiquei a mão e toquei o braço dele.

    Ele não se afastou.

    E quando nossos olhos se encontraram, houve uma confissão muda: **já era tarde demais para fingirmos que não estávamos entregues**.

    Naquela noite, escrevi:

    “Ele não é gentil. Mas também nunca finge. E talvez por isso doa menos quando machuca. Ian tem olhos que entram sem pedir, mas deixam marcas até nas partes que ele não viu.”

    A semana seguinte foi uma dança sem ritmo.

    Ele aparecia sem hora. Me buscava para andar. Para calar. Para rir à toa.

    Num desses dias, me encostou na parede da praça e, pela primeira vez, tocou meu rosto com a ponta do nariz, como se o beijo fosse um destino adiado de propósito.

    — Você sente medo de mim? — ele perguntou.

    — Sinto medo de sentir — respondi.

    Ele sorriu.

    — Então não sente medo de mim. Sente medo de você comigo.

    E talvez fosse isso mesmo.

    Na sexta-feira à noite, fui até o estúdio sem ser chamada.

    Ele estava desenhando, com o rosto sério, óculos torto e camiseta preta manchada de tinta.

    — Posso entrar?

    — Já entrou — ele disse, sem olhar.

    Sentei no mesmo banco de antes. Esperei. Ele terminou a linha do desenho e, então, olhou pra mim com um tipo de ternura cansada.

    — Tô tentando desenhar você. Mas nunca sai igual.

    — Talvez eu só exista do lado de dentro — disse.

    Ele levantou.

    — É. Talvez por isso eu queira marcar do lado de fora.

    A frase pairou no ar como fumaça de cigarro.

    Não nos tocamos.

    Mas quando ele apagou a luz e sentou ao meu lado, senti que, mesmo sem beijo, o corpo dele já morava no meu.

    Na saída, ele segurou minha mão por um instante.

    Não entrelaçou os dedos. Só encostou palma com palma, quente contra quente.

    — Ainda sou provisório, Elisa.

    — E eu ainda tô aqui.

    E seguimos andando, noite adentro, como quem caminha sobre um fio esticado entre o desejo e a desistência.

  • O Professor me Quebrou!

    O Professor me Quebrou!

    Capítulo 1 — Aula de Olhares

    Clara nunca tinha sentido algo parecido. Professores, para ela, sempre foram figuras previsíveis, rígidas, presas a regras e metodologias entediantes. Mas aquele homem não. Gabriel Mancini não parecia apenas um professor. Ele parecia uma ameaça velada, um perigo delicioso que a mente dela não sabia como processar.

    Quando entrou na sala, tudo parou.

    O som dos sapatos italianos ecoou pelo chão de madeira polida, marcando um compasso lento, calculado. Ele vestia um terno escuro, tão perfeitamente alinhado ao corpo que parecia ter sido esculpido nele. A gravata, levemente afrouxada, dava um ar de desleixo proposital, como se cada detalhe fosse uma provocação silenciosa. E então, ele ergueu os olhos.

    Clara perdeu o ar.

    Aquela íris castanho-escura, quase negra, prendia qualquer pessoa que ousasse olhar. Não havia espaço para distrações; era como ser despida sem sequer ser tocada.

    — Bem-vindos à disciplina de Psicologia do Prazer. — A voz dele cortou o silêncio como uma lâmina quente. Grave, firme, cheia de uma calma que quase parecia um aviso. — Nesta sala, vocês vão aprender que tudo o que pensam saber sobre limites… é mentira.

    A turma ficou estática. Alguns alunos riram nervosamente. Outros desviaram o olhar, incômodos. Clara, no entanto, permaneceu com os olhos presos nele — e isso foi o suficiente para ser notada.

    O professor andou devagar até a terceira fileira, onde ela estava. Cada passo era uma ameaça de algo desconhecido.

    — Você — disse, com um olhar afiado. — Qual é o seu nome?

    Clara engoliu em seco.

    — Clara… Clara Martins.

    — Clara. — Ele repetiu o nome como se estivesse provando o gosto de cada sílaba. — Me diga… qual é o limite entre dor e prazer?

    Um arrepio percorreu a espinha dela. A sala inteira parecia observá-la, mas tudo que Clara sentia era o peso daquele olhar.

    — Eu… eu não sei. — Sua voz saiu quase como um sussurro.

    Ele sorriu de canto. Um sorriso lento, perigoso.

    — Boa resposta. Significa que você está no lugar certo.

    Clara sentiu as bochechas queimarem. Não sabia se era vergonha ou algo mais escuro. Algo que ela não queria nomear.

    A aula continuou, mas Clara mal conseguia acompanhar as palavras no quadro. Gabriel falava sobre os mecanismos da mente, sobre como prazer e medo muitas vezes caminham juntos, e cada frase parecia um golpe direto na sua alma. Era como se ele falasse com ela, apenas com ela.

    Em determinado momento, ele perguntou:

    — Alguém aqui já entregou o controle da própria vida para outra pessoa? — A sala ficou muda. — Não estou falando apenas de relações. Estou falando de confiança. De entregar suas fraquezas sabendo que a outra pessoa pode destruí-las.

    Clara não piscou. E foi nessa fração de segundo que percebeu que ele estava olhando diretamente para ela.

    Quando a aula terminou, a maioria dos alunos saiu rapidamente, como se precisassem escapar da intensidade daquele homem. Clara ficou. Queria levantar, mas algo nela — talvez pura curiosidade ou pura loucura — a manteve sentada, organizando lentamente os cadernos.

    Ele se aproximou.

    — Clara. — A voz dele soou baixa, quase um comando. — Você desviou o olhar quando falei de vulnerabilidade.

    Ela respirou fundo.

    — Porque eu não sabia como responder.

    — Não encarar a mim… ou a si mesma? — Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos quase na altura dos dela.

    O silêncio que seguiu foi mais eloquente do que qualquer resposta. Ela sentiu o corpo inteiro em alerta, como se algo estivesse prestes a acontecer.

    Gabriel sorriu, um sorriso lento, perigoso.

    — Você não faz ideia do que está pedindo. — Ele deu meio passo para trás. — Mas eu sei quando alguém está pronta para ser quebrada.

    Clara sentiu a respiração acelerar. Era um aviso? Ou uma promessa?

    Antes que ela pudesse responder, ele já estava na porta. Parou, sem virar o rosto, e disse:

    — Amanhã, na minha sala. Sozinha.

    Clara saiu da sala como quem flutua. Cada célula do corpo parecia elétrica. O que ele queria com ela? Por que aquelas palavras soavam tão erradas, mas ao mesmo tempo tão impossíveis de ignorar?

    No caminho para casa, sentiu-se perdida. As cenas da aula voltavam em flashes — o olhar dele, as perguntas provocadoras, a forma como ele parecia adivinhar os pensamentos mais íntimos dela.

    Deitou na cama, mas não conseguiu dormir. Fechava os olhos e só conseguia lembrar da voz dele dizendo “Você está pronta para ser quebrada”.

    E a pergunta que mais a assombrava não era “o que ele quis dizer? ”, mas sim: será que ela queria ser quebrada?

    No dia seguinte, Clara acordou mais cedo do que o habitual. Tentou se convencer de que não iria. “É só um professor, uma aula. Isso é errado”, repetia para si mesma. Mas quando olhou no espelho, vestindo a camisa branca e a saia lápis, sentiu algo diferente. Um arrepio de antecipação.

    As horas pareceram dias até que o relógio marcou a hora da aula. Quando chegou, a porta estava entreaberta. Clara respirou fundo, hesitou… e entrou.

    Gabriel estava lá, encostado na mesa, com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos. Ele ergueu os olhos devagar, como se soubesse que ela viria.

    — Pontual. Gosto disso. — O tom dele soou quase como uma provocação. — Feche a porta, Clara. Hoje a aula é só para você.

    O coração dela disparou.

    — O que… o que vai me ensinar?

    Ele se aproximou, devagar.

    — Primeiro, vou ensinar você a não ter medo de olhar nos meus olhos. — Gabriel parou tão perto que ela sentiu o calor da respiração dele. — E depois… vou te mostrar como é quando alguém tira o controle que você acha que tem.

    Clara sentiu o corpo inteiro estremecer. Parte dela queria fugir. Outra parte queria ver até onde aquilo iria.

    E antes que pudesse se decidir, ele sorriu de canto e disse, quase como um sussurro:

    — A primeira lição começa agora.

    Capítulo 2 — Palavras que tocam

    Clara passou a manhã tentando convencer a si mesma de que não iria. Que aquilo era loucura. Que professores não trancam portas. Que alunas sensatas não voltam. Mas, quando o relógio marcou quatro da tarde, ela já estava na ala antiga da Universidade Ravenville, com o coração batendo no pescoço e o som dos próprios passos ecoando no corredor.

    A porta do gabinete estava entreaberta. Ela respirou fundo, bateu duas vezes, e entrou.

    Gabriel Mancini não a olhou de imediato. Estava de costas, diante de uma estante alta, escolhendo livros como quem escolhe armas. Camisa branca dobrada até os cotovelos, veias marcadas nos antebraços, relógio escuro, exato. A luz do fim de tarde entrava pelas venezianas, riscando listras de sombra no rosto dele quando se virou.

    — Pontualidade é um bom começo — disse, sem floreio, pousando três livros sobre a mesa. — Sente-se, Clara.

    Ela obedeceu. Ele sentou-se diante dela, sustentando o olhar sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo para desmontá-la.

    Empurrou o primeiro livro em sua direção.

    — A Pianista, de Elfriede Jelinek. Leu?

    — Não.

    — Ótimo. Gosto quando você não vem armada. — Um segundo livro. — História do Olho, de Bataille. Leu?

    Clara negou de novo, um pouco confusa com o rumo. Ele sorriu de leve.

    — E por fim… — empurrou o terceiro, com a lombada gasta. — Anaïs Nin – Diários. Isso, eu suspeito, você folheou escondido.

    Ela ruborizou. Não respondeu.

    — Excelente. Vamos começar com A Pianista. — Gabriel abriu numa página marcada. — A autora trabalha angústia e desejo como duas línguas da mesma boca. Sabe por quê?

    — Porque… às vezes o desejo dói?

    — Porque o desejo, sem liberdade, apodrece. — Ele inclinou-se. — E eu vejo liberdade travada em você. Travada de um jeito… interessante.

    Clara tentou se recompor. Pegou o livro, leu o parágrafo que ele indicou. As palavras eram cortantes, ásperas, nada românticas. Um desejo sem glamour, quase cru. Quando terminou, levantou os olhos.

    — Você acha que o prazer precisa ser… feio? — arriscou.

    — Eu acho que o prazer precisa ser verdadeiro. E o verdadeiro raramente é “bonito”. — Ele apoiou os cotovelos na mesa. — Me diga, Clara: o que te dá prazer?

    Ela prendeu a respiração.

    — Literatura.

    — Lamento. Resposta genérica. — Ele a mediu com os olhos. — Tente de novo. E não minta para si mesma.

    — Por que você acha que estou mentindo?

    — Porque sua pupila dilata quando você é obrigada a falar de si. Porque você mexe o pé direito sob a mesa quando sente medo. E porque você escolheu uma disciplina com meu nome quando poderia ter escolhido qualquer outra. — Um sorriso enviesado. — Agora, responda.

    Clara olhou para a janela, como se o céu pudesse soprar a resposta. E, de repente, entendeu o que estava acontecendo: ele a conduzia para um lugar onde palavras não eram teoria. Eram confissão. E, pior, eram armas.

    — Eu… — começou, sentindo o nó na garganta apertar. — Eu gosto quando alguém me lê como se estivesse me tocando. Satisfeito?

    Gabriel não piscou.

    — Agora sim.

    O silêncio pesou um segundo inteiro.

    Ele pegou História do Olho e abriu numa passagem. A leitura foi mais incômoda — imagética, desafiadora, quase despudorada. Ele recostou-se na cadeira, observando cada reação dela. Clara fechou o livro devagar.

    — Isso é… demais.

    — “Demais” é um adjetivo que os covardes usam quando a fronteira que conhecem se mexe. — Ele puxou os diários de Anaïs Nin. — Leia este trecho. Alto.

    Clara engoliu seco, mas obedeceu:

    — “Escrevo para dar forma ao que me devora. Se não escrevo, me dissolvo.”

    Ela parou. A frase ficou vibrando no ar.

    — Entendeu? — perguntou Gabriel.

    — Sim.

    — Então diga com suas palavras.

    — Se eu não coloco para fora, eu apodreço por dentro.

    — E o que está apodrecendo em você, Clara?

    — Eu…

    Ela fechou os olhos por um segundo. Tão longo, que parecia abandono. Quando abriu, tinha decidido:

    — Eu tenho medo de sentir muito e parecer errada. Tenho medo de querer e ser chamada de fraca. Eu não sei o limite entre controle e entrega. E eu tenho raiva — a voz falhou — de nunca ter dito isso em voz alta.

    O ar mudou.

    Gabriel se inclinou para a frente. Não tocou nela. Não precisou.

    — Agora começamos nossa aula.

    — Só agora?

    — Antes você estava me mostrando quem você finge ser. Agora, quem você é.

    Ele levantou, caminhou até a estante, pegou um caderno preto sem marca. Colocou diante dela.

    — Escreva.

    — O quê?

    — Uma página. Sem interrupção. Sobre “o que você não se permite desejar”. Sem metáforas para se proteger. Sem adjetivos para maquiar. Quando terminar, você vai ler em voz alta.

    O coração de Clara disparou.

    — Isso é um exercício… acadêmico?

    — Não. É um exercício… honesto.

    Ela segurou a caneta. A ponta tocou o papel. Por alguns segundos, nada. Depois, as palavras saíram em avalanche — tortas, tensas, feias, verdadeiras. Sentiu a garganta arder, as mãos tremerem, uma parte dela resistir enquanto outra se aliviava. Quando parou, não sabia se estava mais leve ou mais exposta.

    — Leia — ordenou ele, com suavidade suficiente para parecer cuidado, com firmeza suficiente para soar como imposição.

    Clara respirou. Começou. A voz saiu frágil na primeira linha, depois firme, depois trêmula de novo. Falou do medo de ser chamada de vulgar, da vontade de ser conduzida, da raiva de ter fingido ser menor para ser aceita, do desejo de… confiar — realmente confiar — em alguém que soubesse exatamente o que fazer com a fragilidade dela.

    Quando terminou, a sala parecia outra. O rosto dela estava quente. Havia lágrimas nos olhos, mas não eram de vergonha.

    — Você acabou de fazer mais do que metade da turma faria em um semestre — disse Gabriel, devagar. — Se quiser parar, é agora.

    Ela ergueu os olhos. E, sem perceber, havia um brilho neles que ele não tinha visto antes.

    — Eu não quero parar.

    Ele se recostou, estudando-a como quem recalcula um mapa.

    — Bom. Então, aqui estão as regras — disse, finalmente, com uma calma que anunciava tempestade. — Entre nós, não haverá o jogo dos “talvez”. Ou você diz sim. Ou diz não. Ouviu?

    — Ouvi.

    — Segunda regra: não minta para mim. Nunca. Eu descubro.

    — Certo.

    — Terceira: você escreve, a cada encontro, uma página sobre algo que te assusta sentir. E lê em voz alta.

    — Isso não é… perigoso?

    — Sentir é perigoso. Escrever sobre sentir é um ato de coragem. — Ele ficou em pé, devagar. — E você pediu para ser quebrada, Clara. Eu só estou te mostrando como se faz sem te destruir.

    Uma parte dela se encolheu. Outra, se expandiu.

    — E qual é o limite? — perguntou, quase em desafio.

    Ele sorriu, mas dessa vez havia algo quente no sorriso. Quase… ternura.

    — O limite é sempre o seu. Mas eu vou te levar até ele.

    A luz já tinha desbotado do lado de fora quando ele fechou o caderno e devolveu a ela.

    — Vá embora, Clara.

    Ela piscou.

    — Só isso?

    — Só isso, por hoje. — Uma pausa. — E um último pedido.

    — Qual?

    — Não use o que escrevemos aqui para se punir quando estiver sozinha. Use para se reconhecer quando o mundo quiser te reduzir.

    Ela assentiu, com um nó na garganta.

    Quando chegou à porta, ele chamou:

    — Clara.

    Ela se virou.

    — Da próxima vez… não venha de branco.

    — Por quê?

    — Porque você não é inocente. E eu prefiro quando as pessoas não mentem nem com a roupa.

    Ela segurou a maçaneta, o pulso latejando.

    — E se eu vier de vermelho?

    O olhar dele cintilou.

    — Então você terá entendido a lição.

    Clara saiu, o coração batendo em outra cadência. Caminhou pelo corredor vazio como quem reaprende a andar. No fim do corredor, recebeu uma mensagem no celular. Um número desconhecido.

    Desconhecido: Traga amanhã um texto sobre “o que você teria coragem de pedir se ninguém pudesse te julgar”.

    Desconhecido: Ass.: G.M.

    Ela sorriu sem perceber. E só então notou que, dentro do medo, havia algo maior.

    Vontade.

    Quando guardou o celular, uma sombra cruzou o corredor, observando-a à distância. Henrique, colega de curso, a viu sair do gabinete de Gabriel com os olhos marejados e o rosto aceso. E entendeu que havia um jogo acontecendo ali.

    Um jogo em que ele não tinha sido convidado.

    E, talvez, decidisse se intrometer.